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OITO VIAS QUE CORTAM O DF JÁ ACUMULAM 447 MORTES EM DOIS ANOS

Por Luís Cláudio Cicci - Especial para o Correio Braziliense
Há algo muito errado quando atravessar a rua significa colocar tudo em risco. Nesta semana, dois jovens descobriram, da pior forma, que os investimentos em segurança no trânsito não são suficientes para poupar vidas. Na DF-075, a Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB), e na BR-080, pista que passa por Brazlândia e vai além da divisa do Distrito Federal com Goiás, as mortes de Joel Vitor Sena do Nascimento, 18 anos, e de Adriele Mendonça Resende Menezes de Jesus revelaram a vulnerabilidade de motoristas e pedestres nas vias que cortam a capital do país.
Basta visitar os locais das duas tragédias no trânsito para entender o porquê do perigo. Pouco antes das 13h de um dia de semana, à beira da EPNB, entre o Riacho Fundo e a Área de Desenvolvimento Econômico (ADE) de Águas Claras, chegar a um ponto de ônibus se apresentava como desafio para Douglas Beserra Peixoto, 28, e a filha, Aninha, 3, no colo do pai. Depois de muita espera e duas corridas, com direito a uma parada no canteiro central da rodovia, ambos chegaram salvos ao destino. Do começo ao fim da aventura, o ajudante de cozinha em um restaurante do Setor Hoteleiro Norte perde mais de 10 minutos. “É assim todo dia, pela manhã, nesse horário, e no começo da noite”, relata.
Sob a sombra da parada de ônibus e ainda ofegante, Douglas ergueu o braço para comemorar a missão cumprida. Mas, na pressa de driblar os carros, em meio à preocupação com a integridade da filha e dele, não notou que pisou em sangue. As manchas sobre a faixa de rodagem mais à esquerda da rodovia estavam lá há poucos dias, quando Joel Vitor morreu atropelado.
Nos 12km da EPNB, que cruza parte da região com maior densidade demográfica do DF, o sul, os moradores do Riacho Fundo, da ADE de Águas Claras e dos arredores dispõem de uma passarela. Caso tivesse caminhado seis minutos na noite da última terça-feira, Joel estaria vivo. Esse foi o tempo do qual o jovem preferiu não dispor quando decidiu driblar veículos para fazer a travessia que permitiria a volta para casa. “O cotidiano é corrido, ninguém quer perder tempo”, comenta o trabalhador autônomo Matheus de Sousa, 18, do alto da estrutura de metal, de onde se avista o local do acidente fatal.
Matheus estudou com Joel na 5ª série do ensino fundamental e soube do atropelamento pelas redes sociais. “Ele (Joel) era um cara legal”, conta o morador do Riacho Fundo. A lembrança do colega serve de incentivo para optar pela proteção da passarela. “Prefiro vir por aqui, porque é mais seguro. Lá embaixo, a chance de atravessar sem ter problema é mínima. É um carro atrás do outro”, afirma. O jovem desceu os quatro lances de escada e chegou ao ponto de ônibus onde, depois de cinco minutos, conseguiu o transporte para alcançar o curso de inglês, em Taguatinga.
Adriele de Jesus é outra vítima recente de atropelamento na capital federal. Com idade aproximada de 20 anos, a andarilha morreu ao ser atingida por um furgão amarelo no Km 22 da BR-080. O acidente aconteceu às 19h20 de quarta-feira — desde 2015, a estrada registrou 18 ocorrências fatais (veja Risco) —, quando a jovem não conseguiu cumprir a travessia de aproximadamente 8m.

Licitação

A vulnerabilidade no trânsito do Distrito Federal se explica, em parte, pela irresponsabilidade de motoristas e pedestres. Mas também pela deficiência de equipamentos de segurança. “Reconheço a demanda por passarelas em razão dos aglomerados urbanos”, diz o diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem no Distrito Federal (DER-DF), Henrique Luduvice. “Nesse momento, não há recursos previstos para a execução de passarelas na EPNB”, admite ele, que estima em R$ 3 milhões o custo de uma obra como essa.
Por ora, a solução é recorrer ao orçamento federal, com perspectiva de resultado só para 2018. “O DER pretende buscar essa capacidade de investimento por meio de emendas parlamentares”, adianta Luduvice. “Estamos atendendo a uma série de situações emergenciais e precisamos atuar nas rodovias para os pedestres poderem dispor de mais segurança.” Segundo o diretor-geral, o departamento trabalha na identificação de pontos críticos de segurança para orientar as intervenções nos sistemas viários do DF. “Assumo o compromisso de viabilizar um processo licitatório ainda este ano para a construção de passarela na EPNB”, conclui.
O professor do Departamento de Psicologia Social da Universidade de Brasília (UnB) Hartmut Gunther lamenta a presença de só uma passarela para pedestres em uma pista com a EPNB. “É óbvio que não é suficiente. Falta vontade do poder público para fazer aquilo que é necessário e dar mais segurança ao cidadão no trânsito”, queixa-se. Gunther critica a omissão na adoção de dispositivos como quebra-molas, semáforos, de sinalização e de fiscalização eletrônica e presencial. Mas também cobra comportamento do cidadão. “Os carros, aqui, são comparáveis aos de 1º Mundo, mas ninguém quer se comportar como num país de 1º Mundo. Falta criar ambientes físicos mais seguros e aplicar a lei, punir”, avalia.


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