BIDEN: O OCIDENTE SEM RUMO?

Há quatro anos, ainda candidato, Trump era retratado pela imprensa como um bufão inexperiente, sem intelecto, preparação, habilidade ou ideia coerente do mundo que lhe permitissem gerir as energias da maior potência global. Ao longo da sua presidência, a imagem foi sendo repetida, uma e outra vez, na mais asfixiante unanimidade. Maior injustiça, contudo, seria impossível. Com todos os seus defeitos, Trump deu ao seu país e ao mundo a prenda de um corte merecido com uma classe dirigente esgotada, desfasada da realidade do mundo e agarrada a uma ortodoxia podre. O retorno a essa ortodoxia – e, infelizmente, a provável vitória de Biden não significará outra coisa – terá as piores consequências para a relação da América do mundo, para o seu futuro como superpotência e para o futuro do Ocidente.
Trump não é um doutrinador. Tem faro de empresário. Talvez seja isso – a habilidade de ver a realidade sem a lente enganadora da ideologia – que o faz compreender como o mundo mudou desde 1960, o tempo em que parece ainda viver Joe Biden. Sobre a ascensão da China, dizia Biden recentemente: “China is going to eat our lunch? Come on, man… I mean, you know, they’re not bad folks, folks. But guess what? They’re not competition for us.” Biden terá 78 anos quando for – se vier a sê-lo – jurado presidente, em Janeiro de 2021: e, se o não soubéssemos, percebê-lo-íamos ouvindo-o. Bastaria que nos déssemos ao trabalho de escutá-lo com atenção. Enquanto Kamala Harris acena com o regresso às cruzadas pela democracia que tantos milhões de mortos fizeram e propõe a reabertura do conflito sírio, desejosa de permitir dos “freedom fighters” do Estado Islâmico que dêem aos cristãos do país o fim que coube aos do Iraque, o equilíbrio do poder global altera-se. E ninguém faz mais por essa transformação que a China, já hoje a maior economia global por paridade do poder de compra. Com os Estados Unidos distraídos pelo delírio da promoção democrática e do auto-ódio BLM, Pequim não perde tempo. Este ano, os estaleiros da República Popular lançaram ao mar dez contra-torpedeiros: é quase o dobro da Royal Navy britânica produzido num ano. A US Navy, ainda a mais poderosa do mundo, opera 70 contra-torpedeiros. A China deverá superar esse número até 2025. Nos próximos quinze ou vinte anos, sem uma profunda inversão de rumo e de tendências, Pequim encontrar-se-á na posição de primeira potência naval, capaz de exercer influência decisiva sobre todas as grandes rotas comerciais.
A expansão do poderio chinês não tem par desde que, há 123 anos, Guilherme II da Alemanha chamou o Almirante von Tirpitz ao seu serviço, pedindo-lhe uma armada capaz de bater a inglesa. Trump, homem de negócios, vê números, julga-os friamente e age em conformidade. A sua tão caricaturada política anti-chinesa não corresponde a uma obsessão infantil. Não é, aliás, anti-chinesa: nada no passado de Trump, ou na sua conduta como presidente, permite detectar a mais leve má vontade cinófoba. Foi e é, contudo, pró-americana e comprometida com a preservação da posição do seu país num mundo em rápida mudança, em que o poder parece fluir dos antigos centros para outros novos – potências emergentes ou re-emergentes – e onde a China se apresenta como o Estado melhor colocado para rivalizar com os EUA.A perspicácia estratégica de Trump em relação à China norteia toda a sua visão da política mundial. O caso mais flagrante é o da Rússia, em que Trump gostaria de ter um parceiro – e onde Biden, velho de corpo e obsoleto de cabeça, julga ver ainda o principal adversário dos interesses americanos e, por extensão, ocidentais. É um universo distante e incompreensível, esse em que 1991 não aconteceu, o bloco socialista não implodiu e a guerra fria continua. A realidade é diferente, e Trump, de novo, entende-o bem melhor que a gerontocracia reinante – casta que tem Biden por cabeça de cartaz, mas que nunca deixou de ser maioritária, entre democratas como entre republicanos. O Estado russo saído de 1991, e reerguido na sua força e na sua confiança por Putin desde 1999, não tem vontade alguma de dominação imperialista do mundo: quer ser reconhecida – como os EUA o são no continente americano desde a Doutrina Monroe, e Portugal devia querer sê-lo nas suas zonas tradicionais de influência em África e na Ásia – como potência ordenadora de uma região que pertence à sua órbita civilizacional e política desde o tempo dos Czares. Mais percebe Trump: essa ambição natural da Rússia em nada colide com as dos Estados Unidos, que jamais tiveram interesses relevantes na Ásia Central, no Cáucaso ou no extremo oriental da Europa. Pelo contrário, a pressão expansiva da China – para leste, para o Pacífico; para sul, para o Mar da China Meridional e para a Indochina; para oeste, para a Ásia Central, – deve preocupar também Moscovo, afinal adversário tradicional de Pequim, e motivar a colaboração entre norte-americanos, russos e europeus no que poderia ser, um dia, uma grande coligação pan-ocidental. Em 1972, Nixon e Kissinger aliaram a América a uma China maoísta ainda fraca contra o poder da União Soviética. Desaparecida a URSS, é a China a nova potência dominante na Eurásia. Trump gostaria de repetir Nixon, agora ao contrário: casando-se com a Rússia contra uma China emergente. Entretanto, a China reza para que a agressividade ocidental atire a Rússia para os seus braços. Alguém poderá surpreender-se por o principal jornal do Partido Comunista Chinês, o Renmin Ribao, ter celebrado tão efusivamente as notícias da derrota eleitoral de Trump ?
Trump é, de uma rajada, consequência e causa da revolução mundial em curso: revolução cultural, ou talvez contra-revolução, como vontade de resistência à hegemonia totalitária da nova esquerda; revolução econômica na recusa da desindustrialização, que Trump compreende equivaler, na prática, à sangria das capacidades técnicas e científicas do Ocidente para os seus concorrentes; revolução política na re-afirmação na fronteira, do Estado nacional, do patriotismo, da História e da cultura como factores indispensáveis da harmonia social. Representava sobretudo uma verdadeira revolução diplomática: o corte com o domínio de “especialistas” cujo tempo passou, com as cruzadas pela democracia, com a ideia da América como polícia do mundo – fardo que lhe esgota a energia e o erário – com a guerra permanente e com a ortodoxia decrépita da “liberal world order”. Biden é o contrário: representa o último fôlego, o último lance de uma era que acabou. Ao tentarem retardar a História, ele e os seus causarão grave prejuízo ao mundo ocidental. Resta-nos esperar que o dano não seja demasiado grande.
Fonte: Notícias Viriato
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