A reação do governo federal às sanções anunciadas pelos Estados Unidos contra empresas e cidadãos brasileiros acusados de ligação com o PCC abriu um novo debate político. Mais do que discutir a legalidade ou os efeitos práticos da medida, o que chama atenção é a mensagem transmitida ao cidadão comum.
Ao defender a soberania nacional como principal argumento para contestar a iniciativa americana, integrantes do governo correm o risco de passar uma impressão difícil de explicar para quem convive diariamente com a violência. Para boa parte da população, o combate ao crime organizado é prioridade absoluta, independentemente de quem esteja colaborando para enfraquecer as facções.
Ninguém discute que a soberania é um princípio fundamental das relações entre Estados. Mas também é verdade que organizações criminosas como o PCC atuam além das fronteiras brasileiras, movimentam recursos internacionalmente e desafiam autoridades em diferentes países. O enfrentamento desse tipo de estrutura exige cooperação internacional.
O debate, portanto, não deveria ser "Brasil contra Estados Unidos". A pergunta é outra: toda iniciativa voltada ao enfraquecimento financeiro de organizações criminosas deve ser rejeitada apenas porque partiu de outro país?
Na política, a forma como uma mensagem é recebida costuma ser tão importante quanto sua intenção. Ao concentrar o discurso apenas na defesa da soberania, o governo corre o risco de alimentar a percepção de que a preocupação com a questão diplomática se sobrepõe ao combate ao crime organizado.
Em um país onde milhões de brasileiros convivem com o avanço das facções criminosas, qualquer comunicação pública precisa deixar claro que o maior compromisso do Estado é proteger a população.
No fim das contas, é isso que a sociedade espera: menos discurso e mais resultados no enfrentamento ao crime organizado.

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