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Da peçonha da vespa ao cérebro humano: pesquisa no DF pode revolucionar o tratamento do autismo

 
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB) está abrindo caminhos inovadores na busca por alternativas terapêuticas para o transtorno do espectro autista (TEA). Com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), o estudo analisa o potencial de neuropeptídeos inspirados em moléculas presentes na peçonha de vespas sociais, associados a sistemas de nanotecnologia, como estratégia para atuar diretamente em mecanismos neurobiológicos do transtorno.
O TEA é uma condição complexa do neurodesenvolvimento, marcada por alterações na comunicação, na interação social e por comportamentos repetitivos. Apesar dos avanços em terapias comportamentais e no diagnóstico precoce, ainda não existe um medicamento específico capaz de intervir de forma direta nos processos neuroquímicos envolvidos no transtorno. Os fármacos atualmente disponíveis são utilizados, em geral, apenas para controle de sintomas associados, como ansiedade, irritabilidade e agitação.
É nesse contexto que se insere o projeto coordenado pela professora Márcia Renata Mortari, do Laboratório de Neurofarmacologia da UnB. A pesquisa avalia dois neuropeptídeos bioinspirados — NeuroVAL e Protonectina-F — desenvolvidos a partir de compostos naturais encontrados na peçonha de vespas, mas redesenhados molecularmente para garantir segurança, seletividade e viabilidade terapêutica.
Segundo a coordenadora, o financiamento da FAPDF foi decisivo para a consolidação da linha de pesquisa. 
“O apoio permitiu desde a síntese dos peptídeos até o desenvolvimento dos sistemas nanotecnológicos e a formação de recursos humanos altamente qualificados”, afirma.

 

Abordagem inovadora e múltiplos alvos neuroquímicos
A principal aposta do estudo está no fato de que o TEA envolve alterações simultâneas em diversos sistemas de neurotransmissão, como os sistemas GABAérgico, glutamatérgico, dopaminérgico, serotoninérgico e opioide. Por isso, estratégias terapêuticas que atuam em apenas um alvo costumam apresentar resultados limitados.
Os neuropeptídeos analisados demonstraram capacidade de modular diferentes sistemas neuroquímicos ao mesmo tempo. O NeuroVAL, inicialmente estudado em modelos de dor, apresentou efeito analgésico potente e perfil de segurança promissor, o que incentivou sua investigação em transtornos neurológicos. Já a Protonectina-F demonstrou atividade relacionada à regulação emocional e comportamental, com potencial impacto sobre ansiedade e hiperatividade.
Em modelo experimental de autismo induzido em animais de laboratório, os testes comportamentais indicaram aumento da interação social, redução de comportamentos repetitivos e diminuição dos níveis de ansiedade nos grupos tratados, quando comparados aos controles.

Nanotecnologia como aliada da terapia cerebral
Um dos maiores desafios no uso de peptídeos como medicamentos é sua rápida degradação no organismo. Para contornar esse obstáculo, os pesquisadores associaram os compostos a nanossistemas à base de quitosana e partículas lipídicas sólidas, permitindo a administração intranasal.
Essa via é considerada estratégica para doenças do sistema nervoso central, pois facilita o acesso direto ao cérebro, reduz perdas metabólicas e contorna barreiras fisiológicas, como a barreira hematoencefálica. 
“A nanotecnologia aumenta a eficiência da entrega cerebral e amplia a janela terapêutica segura”, explica Mortari.

Impacto científico e perspectivas futuras
Além do avanço científico, o projeto tem impacto direto na formação acadêmica, envolvendo estudantes de iniciação científica, mestrado, pós-doutorado e apoio técnico. A pesquisa já resultou em trabalhos acadêmicos e abriu novas possibilidades de investigação para outros transtornos neurológicos, como depressão, epilepsia, ansiedade e dor crônica.
O grupo também mantém articulações iniciais com o setor farmacêutico, com vistas ao possível licenciamento do NeuroVAL e à ampliação dos estudos pré-clínicos. Para os pesquisadores, o trabalho reforça o papel da ciência pública na construção de soluções inovadoras e de longo prazo para desafios complexos da saúde.

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