A possibilidade de o Brasil retaliar comercialmente os Estados Unidos começa a provocar preocupação entre empresas que mantêm negócios entre os dois países. A Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham Brasil) defendeu que o governo Lula evite a adoção de contramedidas e concentre seus esforços em uma negociação direta com Washington.
A manifestação ocorre após o governo federal iniciar formalmente um procedimento baseado na Lei da Reciprocidade Econômica, que poderá resultar em medidas contra produtos e interesses americanos em resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre mercadorias brasileiras.
Apesar da abertura do processo, nenhuma retaliação foi definida até o momento.
Amcham teme aumento de custos no Brasil
A principal preocupação apresentada pela entidade é que uma resposta às tarifas americanas possa acabar produzindo consequências negativas também dentro do Brasil.
Segundo a Amcham, eventuais contramedidas apresentam risco de elevar os custos para empresas e consumidores, prejudicar cadeias produtivas, afetar investimentos e provocar uma escalada comercial e política entre os dois países.
A entidade considera que uma reação desse tipo também poderia diminuir o espaço para uma solução negociada.
Por isso, defende que Lula e Trump mantenham canais de diálogo antes que a disputa comercial avance para uma nova etapa.
90,5% das empresas defendem negociação
Um levantamento apresentado pela própria Amcham mostra forte resistência do setor empresarial consultado à adoção de medidas de reciprocidade.
Segundo a entidade, 90,5% das empresas pesquisadas defendem o diálogo diplomático e comercial com o governo Trump.
Apenas 3,2% se manifestaram favoravelmente à adoção de medidas de reciprocidade.
A diferença mostra que, entre as empresas consultadas, existe uma preferência clara pela negociação em vez de uma escalada tarifária.
Governo Lula abriu processo de reciprocidade
O governo brasileiro, entretanto, decidiu deixar aberta a possibilidade de responder aos Estados Unidos.
O procedimento iniciado na quinta-feira (13) não significa aplicação automática de novas tarifas. Ele abre uma série de etapas para avaliar os efeitos das medidas americanas e as possíveis respostas brasileiras.
Entre as alternativas previstas estão aumento de tarifas sobre produtos importados dos Estados Unidos, suspensão de concessões comerciais e outras medidas consideradas proporcionais.
Antes de qualquer decisão, os impactos deverão ser analisados.
Retaliação pode chegar ao consumidor
Esse é um dos pontos mais delicados da discussão.
Uma tarifa brasileira sobre um produto americano não significa necessariamente que o prejuízo ficará apenas com a empresa localizada nos Estados Unidos.
Dependendo da mercadoria escolhida, parte do aumento poderá ser repassada para importadores, empresas e consumidores brasileiros.
O risco é ainda maior quando a importação envolve máquinas, componentes ou matérias-primas utilizadas na produção nacional.
Nesse cenário, uma medida criada para pressionar Washington poderia também aumentar o custo de produção no Brasil.
É justamente esse efeito que a Amcham pede que seja considerado antes de qualquer decisão.
Entidade teme escalada entre Brasil e Estados Unidos
Além das consequências econômicas, existe uma preocupação política.
Brasil e Estados Unidos atravessam um período de divergências em diferentes áreas. Uma troca de tarifas poderia ampliar a tensão entre os governos Lula e Trump.
Para a Amcham, a prioridade deveria ser justamente o contrário: ampliar as negociações para reduzir as sobretaxas existentes e evitar novas restrições comerciais.
A entidade também defende a participação do setor empresarial nas discussões antes da adoção de qualquer contramedida.
Lula terá de escolher entre negociação e retaliação
A abertura do processo colocou uma ferramenta importante nas mãos do governo brasileiro, mas não obriga Lula a utilizá-la.
O Brasil poderá avançar com a reciprocidade caso considere que as negociações fracassaram ou simplesmente manter o mecanismo como instrumento de pressão enquanto tenta chegar a um entendimento com Washington.
O setor empresarial já deixou clara sua preferência.
Com 90,5% das empresas consultadas defendendo o diálogo, a Amcham envia um recado ao governo justamente quando Brasília começa a avaliar uma possível resposta aos Estados Unidos.
A questão agora é saber qual caminho Lula escolherá: avançar com tarifas contra produtos americanos ou buscar um acordo com Trump antes que a disputa comercial entre as duas maiores economias das Américas ganhe uma nova dimensão.

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