A disputa pelas duas vagas do Distrito Federal no Senado ganhou um componente que pode ser decisivo entre os eleitores de direita: o posicionamento dos candidatos em relação ao Supremo Tribunal Federal e, especialmente, à possibilidade de abertura de processo de impeachment contra ministros da Corte.
Entre os principais nomes da direita na corrida, Bia Kicis (PL) e Sebastião Coelho (Novo) possuem posições públicas e documentadas favoráveis à responsabilização de ministros do STF.
Os dois, inclusive, já aparecem juntos em um pedido formal de impeachment contra Alexandre de Moraes apresentado ao Senado em 2024.
Michelle Bolsonaro (PL), por outro lado, apesar de disputar praticamente o mesmo eleitorado e defender maior equilíbrio entre os Poderes, ainda não apresentou publicamente compromisso equivalente de trabalhar pela abertura de um processo de impeachment contra ministro do Supremo.
A diferença pode ganhar peso na campanha.
Bia Kicis já assinou pedidos de impeachment
A posição de Bia Kicis sobre o assunto não começou na eleição de 2026.
A deputada federal possui histórico de apoio a pedidos de impeachment contra ministros do Supremo.
Em 2019, Bia apareceu entre os autores de uma representação apresentada ao Senado contra os ministros Celso de Mello, Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes.
Anos depois, voltou a participar de uma iniciativa dessa natureza.
Em setembro de 2024, Bia Kicis esteve entre os autores da PET 4/2024, apresentada ao Senado com pedido de impeachment de Alexandre de Moraes.
Portanto, sua posição sobre o tema possui registros anteriores à atual campanha.
Sebastião Coelho também assinou pedido contra Moraes
Sebastião Coelho também possui posição pública clara sobre o Supremo.
O ex-desembargador foi um dos autores da mesma PET 4/2024 contra Alexandre de Moraes, ao lado de parlamentares e outros signatários.
Agora candidato ao Senado pelo Novo, Sebastião colocou a reforma do Judiciário entre as principais bandeiras de sua campanha.
Ele já afirmou que pretende trabalhar desde o primeiro dia de mandato por mudanças no Judiciário, especialmente no Supremo Tribunal Federal.
Entre as propostas defendidas estão alterações na estrutura da Corte e mudanças relacionadas ao modelo de escolha de ministros.
Sua candidatura procura, dessa maneira, transformar a insatisfação de uma parcela do eleitorado com o STF em uma das questões centrais da disputa pelo Senado.
Michelle ainda não assumiu compromisso semelhante
A situação de Michelle Bolsonaro é diferente.
A ex-primeira-dama é candidata ao Senado pelo PL e aparece na liderança das pesquisas recentes no Distrito Federal.
Michelle possui um discurso crítico sobre o cenário institucional brasileiro e sua candidatura está diretamente associada ao campo político liderado por Jair Bolsonaro.
Entretanto, nas fontes públicas consultadas até agora, não aparece uma manifestação equivalente à de Bia Kicis e Sebastião Coelho assumindo claramente o compromisso de trabalhar pelo impeachment de Alexandre de Moraes ou de outro ministro do STF caso seja eleita.
Essa ausência pode passar a ser cobrada por uma parcela do eleitorado de direita.
Situação de Bolsonaro aumenta pressão política sobre Michelle
Existe ainda um elemento particularmente delicado envolvendo a ex-primeira-dama: a situação judicial de Jair Bolsonaro.
Michelle afirmou, no lançamento de sua campanha ao Senado, que disputar o cargo era uma “missão” confiada pelo marido.
Ao mesmo tempo, Bolsonaro continua submetido a decisões judiciais do Supremo, circunstância que inevitavelmente torna qualquer posicionamento de Michelle sobre a Corte politicamente mais sensível.
Entre apoiadores mais críticos ao STF, já existe a expectativa de saber qual seria sua posição diante de um eventual pedido de impeachment de ministro da Corte.
Mas é importante separar interpretação política de fato comprovado.
Não há base para afirmar que Michelle não assume essa bandeira por medo de Alexandre de Moraes ou por receio de consequências contra Jair Bolsonaro. Essa é uma hipótese política que precisaria ser demonstrada.
O fato objetivo, até aqui, é outro: Bia Kicis e Sebastião Coelho possuem manifestações e iniciativas públicas favoráveis ao impeachment; Michelle ainda não apresentou compromisso equivalente nas fontes consultadas.
Senado virou prioridade para a direita
A discussão ganhou relevância porque qualquer processo por crime de responsabilidade contra ministro do Supremo passa pelo Senado.
A Constituição estabelece que cabe ao Senado processar e julgar ministros do STF nos crimes de responsabilidade.
Por isso, a composição da Casa tornou-se uma das principais prioridades eleitorais de grupos da direita em 2026.
Não basta eleger um presidente alinhado a esse campo político.
Para aqueles que defendem mudanças na relação entre os Poderes, conquistar cadeiras no Senado é considerado fundamental.
DF terá duas vagas em disputa
A discussão ganha ainda mais importância no Distrito Federal porque o eleitor escolherá dois senadores em outubro.
Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Sebastião Coelho disputam votos dentro de segmentos semelhantes do eleitorado de direita, embora também enfrentem candidatos de centro e esquerda.
Michelle aparece atualmente na frente nas principais pesquisas, enquanto Bia disputa as primeiras posições e Sebastião tenta ampliar sua presença durante a campanha.
Nesse cenário, a posição sobre o STF pode funcionar como critério de escolha para uma parcela dos eleitores.
Bia e Sebastião possuem um diferencial objetivo
Se a pergunta for exclusivamente quem entre esses três candidatos já demonstrou publicamente disposição para apoiar impeachment de ministro do STF, Bia Kicis e Sebastião Coelho possuem o histórico mais objetivo.
Os dois não apenas fizeram críticas à Corte.
Eles já assinaram juntos um pedido formal de impeachment contra Alexandre de Moraes.
Esse documento permanece como uma diferença concreta em relação a Michelle.
A partir daí, caberá à candidata do PL decidir se continuará adotando uma posição mais genérica sobre equilíbrio entre os Poderes ou se assumirá durante a campanha um compromisso explícito sobre como votaria diante de um eventual processo contra ministro do Supremo.
Uma pergunta que Michelle poderá ter de responder
A corrida pelo Senado no DF, portanto, pode produzir uma pergunta cada vez mais presente entre eleitores conservadores:
se chegar ao Senado e receber um processo de impeachment contra um ministro do STF, Michelle Bolsonaro votará a favor ou contra?
Bia Kicis e Sebastião Coelho já construíram um histórico que permite ao eleitor antecipar suas posições.
No caso de Michelle, essa resposta ainda precisa ser dada de maneira igualmente explícita.
E, numa eleição em que duas cadeiras estão disponíveis e o Senado tornou-se peça central da estratégia política da direita, o posicionamento sobre o STF pode deixar de ser apenas um tema de campanha para se transformar em fator decisivo na escolha do segundo voto do eleitor do Distrito Federal.

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