O preço dos alimentos pode se transformar em uma das principais armas da direita na reta eleitoral de 2026. Com o custo de vida ocupando espaço nas preocupações dos brasileiros, aliados de Flávio Bolsonaro começam a enxergar nos supermercados um ambiente capaz de produzir uma mensagem simples e de forte impacto: quanto custava a comida durante a pandemia e quanto custa hoje?
A estratégia ganha força enquanto o governo Lula tenta concentrar o debate eleitoral em outras pautas sociais, entre elas a discussão sobre o fim da escala 6x1.
Ao mesmo tempo, a oposição pretende manter pressão sobre as investigações que alcançaram Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e ampliar o debate sobre inflação e poder de compra.
Supermercado pode virar palco da campanha
A ideia defendida por setores da direita é relativamente simples.
Candidatos e apoiadores de Flávio Bolsonaro poderiam entrar em supermercados, mostrar produtos básicos e comparar os preços atuais com os registrados durante os anos da pandemia.
Arroz, feijão, café, carne, leite, óleo, ovos e outros produtos presentes diariamente na mesa dos brasileiros possuem enorme potencial de comunicação justamente porque dispensam longas explicações políticas.
O eleitor sabe quanto paga no caixa.
Por isso, qualquer comparação desse tipo pode alcançar rapidamente as redes sociais.
Comparação exige considerar inflação
Existe, entretanto, um cuidado indispensável para que a comparação seja séria.
Não basta pegar o preço nominal de um produto em 2020 ou 2021 e colocá-lo ao lado do preço de 2026.
Houve inflação acumulada durante todo esse período. Além disso, preços dos alimentos são influenciados por fatores como safra, clima, câmbio, custos de produção, combustíveis, mercado internacional e oferta doméstica.
Uma comparação eleitoralmente forte e economicamente correta precisa mostrar quanto determinado produto custava, quanto esse valor equivaleria hoje corrigido pela inflação e qual foi sua variação real acima ou abaixo do IPCA.
Sem isso, números verdadeiros podem produzir uma conclusão enganosa.
Pandemia também teve forte inflação dos alimentos
Outro ponto que inevitavelmente entrará nessa disputa é que os preços dos alimentos também subiram significativamente durante a pandemia.
Aquele período foi marcado por problemas nas cadeias internacionais de produção, valorização do dólar, aumento de commodities e outras pressões inflacionárias.
Portanto, a comparação entre os governos Bolsonaro e Lula provavelmente será disputada pelos dois lados.
A direita tentará mostrar o preço atual nas prateleiras.
O governo deverá responder comparando inflação, salários, renda e poder de compra nos diferentes períodos.
Lulinha continuará no discurso da oposição
Paralelamente à economia, as investigações envolvendo Lulinha devem continuar ocupando espaço na estratégia dos adversários de Lula.
O filho do presidente aparece em apurações que ganharam forte repercussão política nos últimos meses. Sua defesa nega irregularidades.
Para a oposição, abandonar esse assunto enquanto outras pautas dominam as redes significaria permitir uma mudança do centro do debate.
Por isso, a tendência é que diferentes temas sejam explorados simultaneamente: custo de vida, investigações, segurança pública e críticas ao governo.
Escala 6x1 pode abrir outra batalha
Do lado governista, a discussão sobre a jornada 6x1 possui potencial para mobilizar principalmente trabalhadores assalariados.
É uma pauta de fácil compreensão e que mexe diretamente com a rotina de milhões de pessoas.
Isso explica por que o tema pode ocupar grande espaço durante a campanha.
Não há, porém, base suficiente apenas nas informações apresentadas para afirmar como fato que a retomada da pauta tenha sido planejada especificamente para desviar a atenção das investigações envolvendo Lulinha. Essa é uma interpretação política que precisaria de evidências adicionais.
Eleição pode chegar ao carrinho de supermercado
A batalha eleitoral tende a sair dos discursos tradicionais e entrar cada vez mais na vida cotidiana.
O preço da comida possui uma característica especialmente poderosa: o brasileiro não precisa acompanhar política para perceber quando o dinheiro compra menos no supermercado.
Se a direita conseguir apresentar comparações históricas tecnicamente corretas e fáceis de entender, o custo da alimentação poderá se transformar em uma das pautas mais fortes contra Lula.
Mas o governo também terá números para responder.
Por isso, a disputa não deverá ser simplesmente sobre qual etiqueta mostra o maior preço.
A verdadeira batalha será para convencer o eleitor sobre em qual período sua renda comprava mais comida.
E essa comparação, feita corretamente, pode dizer muito mais do que simplesmente colocar duas notas fiscais lado a lado.

0 Comentários
Obrigado pela sugestão.