Declaração registrada em cartório descreve três abordagens; citados negam ou ainda não confirmaram o relato, que não apresenta provas por si só
Uma declaração registrada em cartório e encontrada pela Polícia Federal durante uma operação contra a produtora de “Dark Horse” abriu uma nova frente de questionamentos sobre o caso.
No documento, Karina Gama afirma que foi procurada três vezes e incentivada a fechar uma delação premiada envolvendo Flávio Bolsonaro. Segundo a empresária, as abordagens aconteceram entre maio e setembro de 2026.
O documento registra datas, horários, nomes e o conteúdo que Karina atribui aos interlocutores. Apesar do nível de detalhamento, a declaração representa a versão da empresária e não comprova, sozinha, que os fatos ocorreram.
Agora, caberá às autoridades verificar registros de ligações, mensagens, encontros e outros elementos capazes de confirmar ou afastar o relato.
Três abordagens com a mesma sugestão
A primeira abordagem teria ocorrido em 22 de maio, às 9h07. Karina afirma que conversou com Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney e dirigente ligado à Confederação Brasileira de Futebol.
Segundo a declaração, Sarney teria oferecido apoio jurídico e dito possuir “grande proximidade” com o ministro Flávio Dino. Ele também teria apresentado a possibilidade de uma colaboração premiada.
Karina afirma que recusou a proposta por considerar que não havia motivo para delatar alguém ou admitir irregularidades que, segundo ela, não cometeu.
Fernando Sarney nega o episódio. Ele afirma não conhecer Karina Gama e diz que nunca tratou de uma possível delação relacionada ao filme com ela ou qualquer outra pessoa.
Ligação de pastor foi registrada com data e horário
A segunda abordagem teria ocorrido em 27 de agosto, às 11h22.
Karina relata que recebeu a ligação de um pastor e amigo de longa data. Segundo ela, o religioso afirmou ter contato com pessoas ligadas ao governo federal e a ministros do Supremo Tribunal Federal.
O interlocutor teria apresentado a delação como uma maneira de evitar problemas com a Justiça. De acordo com o documento, Karina ouviu que nada aconteceria com ela e que não seria alvo de operação policial caso aceitasse colaborar.
A produtora voltou a rejeitar a possibilidade.
Jornalista também teria mencionado delação
O terceiro contato teria ocorrido em 3 de setembro. Karina atribui a abordagem ao jornalista Breno Pires, da revista piauí.
Segundo a empresária, o jornalista teria dito que ela estava servindo de “bucha de canhão para o candidato”, em possível referência a Flávio Bolsonaro, e sugerido novamente uma colaboração premiada.
O relato precisa ser confrontado com a versão do profissional e com eventuais registros do contato. Uma pergunta ou sugestão feita por um jornalista também não comprova que ele estivesse agindo em nome de autoridades.
Documento foi registrado antes da operação
A cronologia é um dos pontos que mais chama atenção.
Karina registrou a declaração em cartório no dia 4 de setembro. Seis dias depois, em 10 de setembro, foi alvo da operação da Polícia Federal que investiga possíveis irregularidades na aplicação de emendas parlamentares.
A ação, autorizada pelo ministro Flávio Dino, cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados. Mário Frias, produtor-executivo e roteirista de “Dark Horse”, também foi alvo.
A proximidade entre o registro do documento e a operação desperta questionamentos, mas não comprova que a busca tenha sido uma retaliação pela recusa de Karina.
A PF sustenta que a ação foi baseada em indícios de possíveis desvios de recursos públicos, contratos irregulares, lavagem de dinheiro e outras ilegalidades. Os investigados negam os crimes.
Karina isenta Flávio Dino de acusação direta
No próprio documento, Karina faz uma ressalva importante sobre Flávio Dino.
Ela afirma que a alegada proximidade com o ministro foi mencionada exclusivamente por Fernando Sarney. A empresária também registra que não presenciou qualquer conversa entre os dois e não possui elementos para afirmar que Dino conhecia ou participou da abordagem.
Essa observação impede que o relato seja tratado como prova de envolvimento do ministro.
Mesmo assim, o uso do nome de um integrante do STF em uma conversa sobre delação premiada merece esclarecimento. Uma possível apuração poderá mostrar se alguém utilizou indevidamente o nome de Dino ou se a conversa nunca aconteceu, conforme afirma Fernando Sarney.
Mandados sem prisões não provam abuso
A ausência de prisões durante a operação não significa, por si só, que não havia fundamento para as buscas.
Prisões e mandados de busca possuem finalidades e requisitos diferentes. Uma busca pode ser autorizada para preservar documentos, celulares e computadores mesmo quando não existem motivos legais para prender os investigados.
Por isso, classificar a ação como “pescaria probatória” exige a análise da decisão judicial e dos elementos apresentados pela PF. Somente o conteúdo dos autos permitirá avaliar se os mandados foram específicos e fundamentados ou excessivamente amplos.
Caso exige investigação dos dois lados
O documento encontrado na residência ou em instalações ligadas a Karina não pode ser ignorado, mas também não deve ser tratado como prova definitiva.
Se o relato for verdadeiro, será necessário descobrir quem procurou a produtora, em nome de quem agiu e por que uma delação envolvendo um candidato à Presidência teria sido apresentada como forma de evitar uma operação.
Se a declaração for falsa, também será preciso apurar por que nomes de pessoas conhecidas foram registrados em cartório em uma narrativa dessa gravidade.
Investigar as possíveis irregularidades relacionadas às emendas e ao financiamento de “Dark Horse” é necessário. Investigar a alegada pressão para produzir uma delação também é.
A credibilidade das instituições depende de respostas objetivas, provas verificáveis e tratamento igual para todos, independentemente de quem possa ser beneficiado ou prejudicado politicamente.

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