Apenas três dias após o segundo turno, lideranças do Centrão se reuniram com Hugo Motta para discutir uma reforma eleitoral que poderá reduzir o efeito dos puxadores de votos e ampliar a influência dos partidos na escolha dos deputados.
As eleições de 2026 mal terminaram e uma discussão sobre as regras do voto brasileiro já ganhou força no Congresso Nacional.
Na quarta-feira, 28 de outubro, três dias após o segundo turno, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), reuniu lideranças de União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e da federação PSDB-Cidadania. O presidente nacional do PSB, João Campos, também participou das articulações.
Na pauta estava uma reforma que poderá mudar profundamente a maneira como os brasileiros elegem deputados federais, estaduais, distritais e vereadores.
A intenção é aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) ainda em 2026, antes da posse dos parlamentares eleitos em outubro.
O momento escolhido para discutir a mudança levanta uma questão política: por que alterar as regras eleitorais justamente depois de uma eleição que modificou a distribuição de forças no Congresso?
NIKOLAS E PAVANATO MOSTRARAM A FORÇA DOS PUXADORES DE VOTOS
As eleições de 4 de outubro registraram duas votações históricas.
Em Minas Gerais, Nikolas Ferreira (PL) recebeu 3.119.318 votos. Em São Paulo, Lucas Pavanato (PL) conquistou 3.038.438 votos.
Os dois ultrapassaram a marca de três milhões de votos e contribuíram para ampliar significativamente as bancadas de seu partido.
Pelo sistema proporcional utilizado atualmente, os votos recebidos por um candidato também entram no cálculo das cadeiras conquistadas pela legenda.
Isso significa que uma votação expressiva pode ajudar outros integrantes do mesmo partido a conseguir uma vaga, mesmo que tenham recebido menos votos individualmente.
Segundo simulações divulgadas após as eleições, sem os votos de Nikolas Ferreira, a bancada do PL em Minas Gerais poderia cair de 21 para 11 deputados. Em São Paulo, sem os votos de Pavanato, o partido passaria de 19 para 12 cadeiras.
Esses cálculos ilustram o peso das votações individuais no sistema proporcional, embora não representem uma transferência direta de votos entre candidatos.
REFORMA PODERÁ REDUZIR O EFEITO DOS CANDIDATOS MAIS VOTADOS
A proposta discutida por Hugo Motta prevê uma mudança gradual no sistema eleitoral brasileiro.
Uma das alternativas em negociação é a adoção do chamado distritão misto em 2030.
Nesse formato, parte das vagas seria ocupada pelos candidatos individualmente mais votados e outra parte seria distribuída por listas partidárias.
A partir de 2034, a intenção seria implantar o voto distrital misto.
Nesse segundo modelo, metade dos deputados seria eleita diretamente em distritos eleitorais, enquanto a outra metade ocuparia vagas distribuídas conforme a votação dos partidos.
A mudança reduziria o papel dos grandes puxadores de votos na distribuição de cadeiras, mas seus efeitos dependeriam das regras definitivas.
LISTAS PARTIDÁRIAS PODEM AMPLIAR O PODER DAS DIREÇÕES
Um dos pontos mais sensíveis da proposta envolve as listas partidárias.
No modelo discutido, parte das cadeiras seria preenchida a partir de listas de candidatos apresentadas pelos partidos.
Entretanto, ainda não está definido como essas listas seriam organizadas.
Caso sejam adotadas listas fechadas, os partidos estabeleceriam previamente a ordem dos candidatos. As vagas conquistadas seriam ocupadas conforme essa classificação.
Na prática, isso poderia aumentar a influência das direções partidárias sobre quais políticos chegariam ao Congresso.
Os defensores das listas argumentam que elas podem fortalecer os programas partidários e tornar mais clara a responsabilidade das legendas perante os eleitores.
Já os críticos questionam a possibilidade de concentrar decisões nas mãos das cúpulas partidárias, reduzindo a escolha direta de nomes pelo eleitor.
POR QUE APROVAR A REFORMA ANTES DA POSSE DO NOVO CONGRESSO?
Outro ponto que chama a atenção é o calendário.
A proposta poderá ser votada ainda em 2026, pela atual composição da Câmara e do Senado.
Os parlamentares eleitos em outubro somente tomarão posse em fevereiro de 2027.
Isso significa que uma mudança com impacto nas eleições futuras poderá ser decidida antes da entrada dos novos deputados escolhidos pelos brasileiros.
A discussão ganhou relevância após o crescimento de partidos como PL e Novo nas eleições de 2026.
Apesar disso, Hugo Motta já defendia o debate sobre o voto distrital misto antes do pleito. Portanto, não há elementos suficientes para afirmar que a reforma tenha sido criada exclusivamente como reação aos resultados eleitorais.
DISTRITO FEDERAL TAMBÉM PODERÁ SER AFETADO
Se aprovada, a reforma também poderá mudar a eleição dos deputados distritais da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
Atualmente, os 24 parlamentares são escolhidos pelo sistema proporcional.
Caso seja adotado o modelo de divisão igualitária das cadeiras, 12 deputados poderiam ser eleitos diretamente por distritos e outros 12 por listas partidárias.
Essa divisão ainda é uma hipótese, pois dependerá do texto definitivo da PEC.
MUDANÇA AINDA NÃO FOI APROVADA
Apesar das articulações, o novo sistema eleitoral ainda não foi aprovado.
Para alterar a Constituição, a proposta precisará receber o apoio de pelo menos três quintos dos deputados e senadores, em dois turnos de votação em cada Casa.
Também será necessário definir como os distritos serão delimitados, como funcionarão as listas partidárias e quais regras serão utilizadas durante a transição.
A reforma envolve argumentos favoráveis e contrários, mas uma questão permanece no centro do debate: o equilíbrio entre a escolha direta dos eleitores e o poder de decisão dos partidos.
Depois de uma eleição que levou milhões de brasileiros às urnas e alterou a composição do Congresso, a discussão sobre quem define as regras das próximas disputas promete ganhar ainda mais importância.

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