CIENTISTAS HOLANDESES REINVINDICAM A DESCOBERTA DE ANTICORPOS CONTRA O CORONAVÍRUS CHINÊS



      Por Thaís Gracia
   Medicamento poderá ficar pronto em alguns mesesCientistas das universidades holandesas Erasmus MC (Roterdã) e Universidade de Utrecht reivindicam ter descoberto um anticorpo contra o coronavírus chinês. A publicação científica do grupo de 10 cientistas está pronta para avaliação pela revista especializada Nature.
   Eles descobriram um anticorpo que bloqueia a infecção por SARS1 e SARS2. Em outras palavras, um primeiro anticorpo contra o coronavírus chinês.
   Desde quinta-feira (12), o artigo da equipe de dez cientistas está online no BioRxiv – um site no qual biólogos podem publicar suas pesquisas antes de serem avaliadas por uma revista especializada. O artigo menciona um anticorpo contra o SARS2, o coronavírus chinês que causa a atual pandemia (COVID-19). O anticorpo pode ajudar a detectar e prevenir esse tipo de infecção por corona. O anticorpo ativo é o primeiro do mundo.
     Exoneração de responsabilidade
   O anticorpo ainda não foi testado em seres humanos (levará meses) e o artigo ainda está em avaliação por pares antes da publicação pela revista especializada Nature. Mas o professor de biologia celular Frank Grosveld (71), que faz parte da equipe de cientistas, está esperançoso. 
   “Esperamos um e-mail a todo momento”, disse Grosveld em seu laboratório da Universidade Erasmus MC, em Roterdã.
   “Publicamos um artigo sobre um anticorpo que já tínhamos isolado para a pandemia atual e que reagiu de forma cruzada (termo biológico para repelir uma substância estranha) com vários coronavírus. O anticorpo impede que o vírus seja capaz de infectar e também pode ajudar na detecção do vírus”, disse Grosveld a respeito da descoberta feita em parceria com seus colegas pesquisadores do Departamento de Virologia e da Universidade de Utrecht.
    Projeto que levou à descoberta
   “Há quinze anos, iniciei um projeto como ‘hobby’ para ver se poderíamos produzir anticorpos humanos (proteínas produzidas em resposta a antígenos como vírus) em camundongos. O projeto deu certo e acabou levando ao estabelecimento de uma empresa na Universidade Erasmus MC: a Harbor Antibodies BV. Agora, temos escritórios em Xangai, Boston e Roterdã, onde está localizada a filial de inovação. Eles desenvolvem principalmente anticorpos para curar tumores”, disse Grosveld.
   “Agora estamos tentando obter um produto farmacêutico – que parece bom, a propósito – que pode produzir o anticorpo em larga escala como medicamento”, acrescentou Grosveld.
  “Em parceria com o Departamento de Virologia da Erasmus MC e o departamento de Medicina Veterinária de Virologia da Universidade de Utrecht, acabamos desenvolvendo um projeto europeu: o ZAPI (Iniciativa de Antecipação e Preparação para o Zoonosex). O objetivo era desenvolver anticorpos contra MERS, SARS e outro coronavírus de Hong Kong (OC-43). Nesse projeto, encontramos anticorpos que reagiram de maneira cruzada com esses três vírus diferentes e impediram a infecção.”
   “Mas esses vírus já foram contidos, agora estamos lidando com um vírus corona diferente. No estudo anterior, ainda tínhamos anticorpos não testados no refrigerador que não reagiram com as três mutações, mas com SARS1. Quando a crise atual – do SARS2 – eclodiu, testamos imediatamente se os anticorpos que reagiram com o SARS1 também respondem ao SARS2. Então, encontramos o anticorpo agora publicado!”, explica Grosveld.
    Próximos passos
  “Agora, estamos tentando montar uma empresa farmacêutica – que parece boa, por sinal – que pode produzir o anticorpo em larga escala como medicamento. Antes de entrar no mercado, o anticorpo deve ser testado através de uma extensa fase de desenvolvimento e de propriedades toxicológicas. Esse processo começa agora. Também queremos usar o anticorpo, exceto como medicamento, para configurar um teste de diagnóstico: um que todos possam fazer em casa, para que as pessoas possam saber facilmente se estão infectadas ou não”, disse Grosveld.
   Segundo Grosveld, este é o primeiro anticorpo descoberto que bloqueia a infecção e há uma boa chance de que ele também se torne um medicamento no mercado.
   “Encontrar algo assim acontece muito pouco. Durante minha carreira, trabalhei muito na regulação de genes: como os genes são ligados e desligados, qual é a estrutura do nosso genoma. Felizmente, também pude fazer várias descobertas, onde tive a sensação de que agora estamos realmente um passo adiante. Mas essa pesquisa era principalmente sobre conhecimento e era de interesse científico. Este anticorpo tem uma aplicação concreta”, disse Groslveld.
   Solução para o coronavírus?
   “Se você tomar isso como paciente, é esperado – e isso é apenas uma expectativa – que a infecção seja interrompida no paciente. E assim o paciente tem a oportunidade de se recuperar. Mas a prevenção é obviamente melhor do que remediar: uma solução real é, portanto, uma vacina, outros estão trabalhando nisso. No entanto, o desenvolvimento de uma vacina pode facilmente levar dois anos. Nosso remédio, se tudo funcionar, já está lá. Só que ele é mais caro para produzir”, explicou Grosveld.
   De acordo com Grosveld, uma vacina geralmente consiste em uma proteína que vem de um vírus vivo enfraquecido ou de um vírus morto.
   “Se você colocar um pouco do vírus em pessoas ou animais, eles criarão anticorpos contra isso. Isso cria as chamadas células de memória que lembram o que viram antes. Se o vírus tentar penetrar, essas células da memória poderão responder rapidamente e afastar o vírus. Um anticorpo atua como medicamento, mas o paciente não o fabrica. Se você administrar o medicamento, ele durará algumas semanas e será suficiente para a recuperação, mas provavelmente não afastará o vírus para sempre. O melhor para isso é se o paciente tiver sua própria imunidade”, explicou Grosveld.
   Grosveld disse que ele e sua equipe começaram imediatamente um árduo trabalho de pesquisa na corrida contra o tempo contra a pandemia que está causando o pânico atual global.
   “Meu colega de Utrecht, Berend-Jan Bosch, e eu pensamos: temos que fazer alguma coisa e talvez tenhamos alguma coisa. É por isso que começamos imediatamente e é com o trabalho duro e intenso. Começo por volta das nove, até cerca das sete. Depois, vou para minha família e, quando a paz volta em casa, volto e começo de novo, até pouco depois da meia-noite”, disse Grosveld.
   A descoberta foi publicada no BioRxiv, mas somente quando for aprovada pelos colegas da Nature ela poderá ser oficialmente reconhecida e publicada pela imprensa.
   “Mas se a imprensa nos fizerem perguntas, podemos respondê-las. Esperamos que a aprovação chegue em alguns dias e a Nature também envie um comunicado de imprensa. Você pode ver que a publicação no BioRxiv já está provocando algo entre colegas no Twitter e LinkedIn. Ontem, eu já recebi um número recorde de e-mails e WhatsApps”, disse Grosveld.
   Abordagem da Europa (Holanda)
   Segundo Grosveld, a abordagem da Europa (Holanda) no combate ao vírus é lapsa.
   “Temos sido muito relaxados e não estávamos bem preparados. Por exemplo, houve poucos testes e poucas restrições no início, como vimos o que aconteceu na China e na Itália”, disse Grosveld.
   Testes de diagnóstico
   Grosveld disse que um primeiro teste barato já foi realizado na China, mas não saberia dizer quantos podem ser produzidos.
   “Pedi para enviar alguns testes para tentar aqui, mas a proibição de voos da China pode dificultar. Fazer um teste pode ser mais rápido do que fazer um medicamento, porque esse teste não precisa ser examinado tão extensivamente. Não é administrado a um paciente e funciona como um teste de gravidez, porém, com muco da bochecha em vez de urina. Não sei quanto custará o teste no final.”
   Grosveld disse que no primeiro estudo realizado por sua equipe, com SARS, MERS e OC43, eles fizemos um trabalho inteligente – antes que a crise do coronavírus chinês eclodisse.
   “Tivemos a sorte de ter anticorpos que também se ligam ao novo vírus. Estávamos, portanto, à frente dos outros, mas sem dúvida, ainda serão desenvolvidos mais anticorpos contra o SARS2 por nós”, acredita Grosveld.
   Fonte: Erasmus Magazine. 


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