Após anos tratando o tema da segurança pública com cautela ideológica, relativizações conceituais e críticas recorrentes às forças policiais, a esquerda brasileira iniciou uma guinada discursiva evidente. O movimento não nasce de uma revisão profunda de valores, mas de um dado incontornável: a violência se tornou a maior preocupação do eleitor brasileiro e passou a cobrar um preço político alto de quem a negligencia.
A troca no comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública, oficializada em janeiro de 2026, simboliza essa inflexão. A saída de Ricardo Lewandowski e a chegada de Wellington César Lima e Silva marcaram a tentativa do governo Lula de reposicionar sua narrativa. O novo ministro estreou prometendo derrotar o crime organizado, uma linguagem até então associada quase exclusivamente à direita.
A mudança ocorre após um 2025 marcado por episódios de forte repercussão, como grandes operações policiais no Rio de Janeiro, que receberam ampla aprovação popular. Pesquisas mostraram que a população, inclusive eleitores de centro e esquerda, apoia ações duras contra facções criminosas. Esse dado funcionou como alerta máximo no Planalto.
O problema para o governo é que discurso não apaga histórico.
Durante décadas, o campo progressista construiu sua atuação na segurança pública a partir de uma lógica que priorizava o criminoso como produto de desigualdades sociais, frequentemente tratando a repressão como fator secundário ou até indesejável. Policiais foram demonizados, operações foram classificadas como “genocidas” e o endurecimento penal sempre enfrentou resistência interna, tanto política quanto militante.
Agora, às vésperas de um novo ciclo eleitoral, o mesmo campo tenta ocupar o discurso da ordem, da autoridade e da repressão qualificada ao crime. Governadores de esquerda e centro-esquerda passaram a anunciar reforço policial, ampliação de operações e integração das forças de segurança. No Nordeste, estados governados por aliados do Planalto transformaram a segurança em vitrine política, adotando práticas que antes eram alvo de críticas ideológicas.
A chamada “direitização” do discurso não é apenas federal. Prefeitos, governadores e dirigentes partidários passaram a disputar quem fala mais alto sobre combate às facções, presença do Estado em áreas dominadas pelo crime e fortalecimento das polícias. A motivação é clara: segurança pública virou tema central para 2026, e ignorá-lo pode ser fatal nas urnas.
Especialistas apontam que a guinada é pragmática, não conceitual. O governo tenta corrigir uma fragilidade evidente sem enfrentar suas próprias contradições. Ao mesmo tempo em que promete tolerância zero, Lula mantém a defesa de uma PEC da Segurança Pública que centraliza poderes na União e reduz a autonomia dos estados — proposta vista com desconfiança por gestores locais e pela oposição, que enxergam risco de burocratização e enfraquecimento das respostas regionais ao crime.
O dilema da esquerda é simples e profundo: como convencer o eleitor de que a mudança é sincera, quando o discurso histórico caminhou na direção oposta? Como sustentar uma retórica de polícia forte sem enfrentar a militância que, por anos, foi educada a ver a repressão como problema e não como solução?
A realidade impôs seus termos. O crime organizado avançou, as facções se expandiram nacionalmente e a população cansou de explicações sociológicas para a insegurança cotidiana. O eleitor quer resultado, não tese.
A tentativa de reposicionamento pode até render dividendos no curto prazo, mas carrega um custo: a exposição das incoerências. Em política, o passado não desaparece apenas porque o discurso mudou. E, em 2026, essa conta pode ser cobrada nas urnas.
A esquerda percebeu tarde o que a sociedade já sabia há muito tempo: sem segurança, não há política social que se sustente.

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