O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força no país, impulsionado por propostas que defendem a redução da jornada semanal de trabalho. A ideia, à primeira vista, parece sedutora: menos dias trabalhados, mais qualidade de vida e manutenção dos salários. Mas, quando se observa a realidade econômica brasileira, o cenário se torna bem mais complexo.
O Brasil não é formado majoritariamente por grandes multinacionais com margens folgadas. Pelo contrário. A base da economia nacional está nas micro, pequenas e médias empresas, responsáveis por grande parte dos empregos formais. Em milhares de cidades com menos de 20 mil habitantes, o comércio local, a padaria da esquina, o pequeno mercado e a oficina mecânica são os verdadeiros motores da economia. São esses empreendedores que sentem primeiro qualquer mudança brusca nas regras do trabalho.
A proposta de reduzir a jornada sem uma compensação proporcional nos custos pode gerar um efeito dominó. Se o empresário precisar manter o mesmo salário pagando menos horas trabalhadas, o custo por hora aumenta automaticamente. Para negócios pequenos, isso não é detalhe técnico. É questão de sobrevivência. A consequência pode ser simples: redução de contratações, aumento de preços ou até fechamento de portas.
Outro ponto que gera questionamentos é a falta de clareza sobre os impactos econômicos reais da medida. Mudanças estruturais no mercado de trabalho exigem estudos profundos, dados concretos e projeções realistas. Não basta comparar o Brasil com países ricos que já passaram por décadas de reformas econômicas, redução de burocracia e incentivo ao empreendedorismo. A realidade brasileira é diferente, com alta carga tributária, legislação complexa e dificuldades históricas para quem decide abrir ou manter um negócio.
Existe ainda um aspecto prático pouco discutido: a liberdade individual. Muitos trabalhadores preferem jornadas maiores para aumentar a renda mensal, fazer horas extras ou manter estabilidade financeira. Impedir esse tipo de escolha pode afetar justamente quem mais precisa trabalhar para sustentar a família.
O risco maior não está apenas na redução da jornada em si, mas na forma como ela pode ser implementada. Sem planejamento, sem diálogo com o setor produtivo e sem análise de impacto, a medida pode acabar prejudicando exatamente aqueles que mais geram empregos no país. O empresário pequeno não tem margem para absorver custos inesperados. Quando a conta não fecha, ele corta despesas. E, na maioria das vezes, a primeira despesa cortada é a mão de obra.
A discussão sobre qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e descanso é legítima e necessária. Porém, ela precisa caminhar junto com a sustentabilidade econômica. Um país que dificulta a geração de empregos corre o risco de ampliar a informalidade, reduzir investimentos e enfraquecer a própria base produtiva.
O verdadeiro desafio não é simplesmente trabalhar menos ou mais. É criar um ambiente onde empresas possam crescer, contratar e pagar melhor. Sem isso, qualquer mudança na jornada pode parecer avanço no papel, mas se transformar em crise na prática.

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