Registros oficiais do Palácio do Planalto e informações de bastidores revelam que o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega atuou como articulador direto entre o governo federal e o Banco Master ao longo de 2024. No mesmo período, Mantega mantinha um contrato de consultoria privada com o controlador da instituição, Daniel Vorcaro, com remuneração mensal de R$ 1 milhão.
Ao menos cinco encontros de Mantega com integrantes do núcleo mais próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva constam em agendas oficiais antes da reunião que levou Vorcaro ao gabinete presidencial. As reuniões ocorreram com o chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, figura central no controle do acesso ao presidente.
O último desses encontros foi registrado em 4 de dezembro. Na ocasião, Mantega compareceu acompanhado de Vorcaro, embora o nome do banqueiro não tenha sido formalmente incluído na agenda pública do Planalto. Pouco depois, foi concedida audiência direta com Lula, no próprio gabinete presidencial.
Mediação em momento crítico do banco
A articulação ocorreu em um momento delicado para o Banco Master, que enfrentava problemas de liquidez e buscava alternativas para manter suas operações. Nesse contexto, Mantega passou a atuar como intermediário político e institucional, com a missão de abrir canais no governo federal e discutir soluções para o futuro da instituição.
Entre as alternativas em análise estava a possível venda do Master ao Banco de Brasília, operação que dependia de aval político e institucional. A presença constante de Mantega no Planalto reforça o papel de ponte entre o banco privado e o centro do poder federal.
Reunião com Lula e críticas ao mercado
O encontro com Lula contou com a presença de integrantes do alto escalão do governo, como o ministro da Casa Civil, Rui Costa, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, além de Augusto Lima, então CEO do Master, e Gabriel Galípolo, que à época já havia sido indicado para assumir a presidência do Banco Central.
Durante a reunião, Vorcaro relatou ao presidente que estaria sofrendo pressão do mercado, especialmente do BTG Pactual, para vender o banco por um valor considerado simbólico. Segundo relatos, o banqueiro questionou Lula sobre a conveniência de levar adiante a venda ou manter o controle da instituição.
Lula teria aconselhado Vorcaro a não transferir o controle do Master ao BTG. Na mesma conversa, o presidente fez críticas ao banqueiro André Esteves e à condução do Banco Central sob a gestão de Roberto Campos Neto, reforçando o viés político do diálogo.
Conflito de interesses sob escrutínio
A revelação de que Guido Mantega recebia R$ 1 milhão por mês para prestar consultoria privada ao Banco Master enquanto articulava reuniões no Planalto levanta questionamentos sobre conflito de interesses, limites éticos e o uso de influência política adquirida em cargos públicos.
Embora não haja, até o momento, decisão judicial que caracterize ilegalidade, o episódio reacende o debate sobre a promiscuidade histórica entre poder político e interesses financeiros no Brasil. A atuação de ex-ministros como intermediários informais entre empresas privadas e o governo segue sendo um dos pontos mais sensíveis da relação entre Estado e mercado.
Historicamente próximo de Lula, Mantega já havia se reunido com integrantes do gabinete presidencial em 2023, antes mesmo do contrato com o Banco Master vir a público. Não há registros oficiais de encontros semelhantes em 2025 e 2026, período posterior ao agravamento da crise da instituição financeira.
O caso amplia a pressão por transparência nas agendas presidenciais e por critérios mais claros sobre a atuação de ex-integrantes do governo em negociações privadas que envolvem decisões de interesse público.

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