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Delmo Menezes: Crise política e cálculo eleitoral colocam Brasília em “modo espera”

 
A política do Distrito Federal entrou oficialmente em estado de observação. Depois do prazo de desincompatibilização e da intensa janela partidária, muitos atores do cenário político brasiliense parecem ter apertado o freio e adotado uma postura cautelosa diante das incertezas que cercam as eleições de 2026. O sentimento predominante nos bastidores é um só: ninguém quer dar um passo errado antes de entender para onde sopra o vento do poder.
E isso se explica.
A disputa para deputado distrital promete ser uma das mais difíceis e imprevisíveis dos últimos anos. A redução no número de candidatos que cada partido poderá lançar aumentou brutalmente a concorrência interna. Agora, não basta apenas ter votos; é preciso estar no partido certo, no grupo político certo e, principalmente, no lado vencedor das alianças que ainda estão em formação.
Muitos parlamentares que trocaram de legenda acreditando que encontrariam um caminho mais confortável talvez já tenham percebido que o cálculo político não era tão simples. Em Brasília, eleição proporcional não perdoa erros estratégicos. Há candidatos que podem alcançar votações expressivas e, ainda assim, ficarem de fora por falta de densidade eleitoral da legenda.
O chamado quociente eleitoral continua sendo o verdadeiro “juiz invisível” das eleições proporcionais. O eleitor muitas vezes acredita que escolhe apenas o candidato, mas, na prática, escolhe também fortalecer o partido. E é justamente aí que mora o perigo para muitos pré-candidatos distritais.
Partidos pequenos ou legendas sem musculatura política suficiente correm sério risco de não atingir o mínimo necessário para garantir cadeiras na Câmara Legislativa. Nesse cenário, candidatos competitivos podem acabar vítimas do próprio partido. Em alguns casos, o político terá mais votos do que deputados eleitos em outras legendas, mas ficará sem mandato porque sua sigla não alcançou o desempenho necessário.
Por outro lado, há aqueles que decidiram permanecer em partidos tradicionais como o MDB e o Republicanos, apostando na força histórica dessas legendas no DF. A lógica parece razoável: partidos estruturados, com capilaridade política e presença consolidada nas regiões administrativas.
Mas a política raramente respeita lógica linear.
O recente estremecimento entre o ex-governador Ibaneis Rocha e a governadora Celina Leão pode provocar impactos profundos nas bases eleitorais. Em Brasília, o poder administrativo sempre teve enorme influência na sobrevivência política dos parlamentares. Deputado sem espaço no governo perde força, perde indicações, perde interlocução e, muitas vezes, perde apoiadores.
A máquina pública, gostem ou não os defensores do discurso idealista, continua sendo peça central na engrenagem política do DF. Quando um parlamentar deixa de ocupar espaços estratégicos no governo, abre-se imediatamente uma disputa silenciosa por lideranças comunitárias, cargos e estruturas de apoio político.
E é justamente por isso que tantos políticos estão em “modo espera”.
Ninguém sabe ao certo qual será o tamanho do rompimento entre os grupos políticos que hoje orbitam o Palácio do Buriti. Ninguém sabe quais alianças sobreviverão até a campanha. Ninguém sabe quem estará no palanque de quem daqui a alguns meses.
Como se isso não bastasse, há ainda um fator capaz de embaralhar completamente o cenário: a possível elegibilidade de José Roberto Arruda. Uma eventual liberação do ex-governador para disputar eleições teria potencial para reorganizar forças políticas, redistribuir apoios e alterar profundamente a composição eleitoral do DF.
O que se vê, neste momento, é um ambiente de extrema cautela. Parlamentares calculam cada movimento. Lideranças comunitárias aguardam definições. Partidos tentam medir força sem saber exatamente quem estará em campo. E pré-candidatos vivem a angústia de uma eleição em que o erro de estratégia pode custar quatro anos fora da vida pública.
A verdade é que, no Distrito Federal, a eleição para deputado distrital e deputado federal, talvez seja ainda mais difícil do que a disputa majoritária. Não basta popularidade. Não basta estrutura. Não basta dinheiro. É preciso matemática eleitoral, articulação partidária e sobrevivência política.
Enquanto as peças ainda estão sendo movimentadas no tabuleiro, Brasília segue observando, em silêncio, os próximos capítulos dessa disputa. Afinal, antes de correr, boa parte da classe política prefere esperar para descobrir quem realmente continuará de pé quando a tempestade começar.
Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo, especialista em relações institucionais com experiência e participação política. Editor-chefe do portal de notícias Agenda Capita

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