Duas decisões judiciais alteraram pontos importantes do encontro poucas horas antes da transmissão. O resultado foi o cancelamento do último debate presidencial da Globo antes do primeiro turno
O Brasil deveria ter acompanhado, na noite de quinta-feira (1º), o último grande confronto entre os candidatos à Presidência antes da votação de domingo.
Mas o debate da TV Globo não aconteceu.
Em poucas horas, decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) modificaram pontos importantes das regras previstas para o encontro. No mesmo período, Flávio Bolsonaro desistiu de participar e a emissora decidiu cancelar o programa, alegando insegurança jurídica.
Para entender como o último debate terminou antes mesmo de começar, é necessário reconstruir o que aconteceu nos tribunais.
Lula decide não participar
O primeiro elemento dessa história foi a ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Lula comunicou que não participaria do debate.
A Globo, entretanto, já havia estabelecido como trataria candidatos ausentes.
Pelas regras previstas para o encontro, o púlpito destinado ao candidato que faltasse permaneceria identificado no estúdio. Os adversários também poderiam, em determinado momento, informar qual pergunta fariam ao ausente.
A coligação de Lula decidiu questionar esse formato no TSE.
E conseguiu uma liminar.
TSE muda regra sobre candidato ausente
A ministra Estela Aranha determinou que a Globo não exibisse o púlpito identificado de Lula durante o debate.
Também proibiu que os candidatos presentes direcionassem perguntas ao presidente ausente.
Na fundamentação, a ministra considerou que a participação em debates é facultativa e entendeu que o formato poderia produzir consequências negativas para quem optasse por não comparecer.
Na prática, a decisão modificou, poucas horas antes da transmissão, a forma como a Globo pretendia tratar a ausência de Lula.
A medida provocou forte reação política.
Histórico de Estela Aranha entra no debate
Depois da decisão, informações sobre a trajetória de Estela Aranha começaram a circular nas redes sociais e passaram a ser utilizadas por críticos para questionar sua atuação.
Registros da Justiça Eleitoral mostram que, antes de integrar o TSE, ela realizou doações para três candidaturas.
Em 2004, doou R$ 800 para Nabil Bonduki, então candidato pelo PT.
Em 2018, foram R$ 1 mil para Jean Wyllys, então candidato pelo PSOL.
Em 2022, Estela destinou R$ 750 para Erika Hilton, também do PSOL.
Ela também exerceu funções no atual governo.
Estela foi secretária de Direitos Digitais do Ministério da Justiça durante a gestão de Flávio Dino e posteriormente ocupou cargo de assessora especial da Presidência da República.
Em 2025, seu nome integrou uma lista tríplice encaminhada pelo STF para uma vaga destinada a juristas no TSE. Lula escolheu Estela entre os nomes apresentados.
Esses fatos são verificáveis, mas não demonstram, isoladamente, que a decisão sobre o debate tenha sido parcial. Doações eleitorais anteriores e passagens pelo Executivo não constituem, por si só, prova jurídica de impedimento ou suspeição.
Ainda assim, o histórico tornou-se parte da controvérsia política provocada pela liminar.
Enquanto isso, Renan Santos buscava espaço
Paralelamente à disputa envolvendo Lula, outra batalha judicial acontecia.
Renan Santos (Missão) tentava participar do debate.
A controvérsia chegou inicialmente à Justiça Eleitoral.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, não garantiu a participação de Renan nas condições pretendidas.
Outra tentativa também encontrou resistência.
Tudo indicava que o candidato ficaria fora do programa.
Até que o caso ganhou um novo caminho no Supremo.
Gilmar Mendes entra no jogo
O Solidariedade apresentou uma petição ao ministro Gilmar Mendes, do STF, defendendo a participação de Renan.
Um detalhe chamou atenção.
O pedido foi apresentado dentro de uma reclamação que já estava sob relatoria de Gilmar e cuja controvérsia original estava relacionada a Deltan Dallagnol, no Paraná.
Gilmar analisou o pedido e determinou que Renan fosse incluído no debate.
Ao justificar sua posição, o ministro mencionou inclusive números da pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro.
Renan aparecia com 3% das intenções de voto, enquanto Romeu Zema registrava 1%.
Gilmar também aproveitou a decisão para discutir os limites da competência da Justiça Eleitoral.
Segundo o ministro, é equivocada a interpretação de que todas as questões relacionadas ao processo eleitoral necessariamente terminem no TSE.
Quando existe matéria constitucional, sustentou Gilmar, o STF mantém sua atribuição de guardião da Constituição.
Duas decisões em poucas horas
A Globo passou então a enfrentar um cenário completamente diferente daquele previsto anteriormente.
De um lado, uma decisão do TSE modificava a maneira como a ausência de Lula poderia ser apresentada durante o debate.
Do outro, uma decisão do STF obrigava a emissora a incluir Renan Santos.
As duas mudanças chegaram praticamente na reta final da preparação do programa.
E então veio uma terceira mudança importante.
Flávio Bolsonaro desiste
Flávio Bolsonaro (PL) estava confirmado no debate.
Depois da decisão do TSE envolvendo a ausência de Lula, anunciou que não participaria mais.
Flávio classificou a medida como “censura” e afirmou que a “insegurança jurídica chegou ao seu ápice”.
“Eu não vou compactuar com censura e interferência do Judiciário nas eleições”, declarou.
A classificação de “censura” representa a interpretação apresentada pelo candidato. A ministra Estela Aranha justificou sua decisão com argumentos relacionados à facultatividade dos debates e aos efeitos eleitorais da exposição do candidato ausente.
Globo cancela o debate
Pouco depois, a Globo tomou a decisão definitiva.
O debate estava cancelado.
Na justificativa apresentada publicamente, a própria emissora também utilizou a expressão “insegurança jurídica”.
A Globo afirmou que as decisões tomadas pouco antes da transmissão modificaram regras previamente estabelecidas e representaram, na avaliação da empresa, uma “interferência indevida” na liberdade dos veículos de comunicação para organizar debates eleitorais.
O último confronto presidencial da emissora antes das urnas terminou sem candidatos no estúdio.
Um debate decidido nos tribunais
A sequência dos acontecimentos produziu uma situação incomum.
Lula decidiu não participar.
A Justiça Eleitoral modificou a forma como sua ausência poderia aparecer no programa.
Renan Santos conseguiu no Supremo o direito de participar.
Flávio Bolsonaro desistiu após a decisão envolvendo Lula.
E a Globo cancelou tudo.
O confronto que deveria acontecer entre os candidatos acabou substituído por uma disputa jurídica sobre as próprias regras do confronto.
O eleitor ficou sem o último encontro
Existem diferentes interpretações jurídicas para cada uma das decisões.
O TSE apresentou fundamentos para impedir o púlpito identificado e as perguntas ao candidato ausente.
Gilmar Mendes apresentou argumentos constitucionais para garantir a participação de Renan.
Flávio Bolsonaro classificou uma das decisões como censura.
A Globo considerou que as mudanças produziram insegurança jurídica e interferência indevida em sua autonomia.
Mas existe uma consequência que independe dessas interpretações.
O eleitor ficou sem o último debate presidencial previsto antes do primeiro turno.
O episódio também deixa questões institucionais que provavelmente continuarão sendo discutidas depois da eleição.
Até onde pode ir a intervenção judicial nas regras de um debate organizado por uma emissora?
Qual é o limite entre a competência da Justiça Eleitoral e o controle constitucional exercido pelo Supremo?
E até que ponto regras previamente estabelecidas podem ser modificadas poucas horas antes de um encontro dessa importância?
Naquela quinta-feira, essas perguntas não foram respondidas diante das câmeras.
O debate que o Brasil deveria assistir acabou sendo decidido nos tribunais.
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