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Reunião pública vira crime, encontro secreto vira rotina

A política brasileira entrou em uma fase perigosa de assimetria institucional. O que ontem foi tratado como atentado à democracia, hoje é relativizado, silenciado ou empurrado para debaixo do tapete. A diferença de tratamento entre casos semelhantes expõe um padrão duplo que não passa despercebido pela sociedade.
Em julho de 2022, Jair Bolsonaro se reuniu publicamente com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada. O encontro foi transmitido ao vivo, registrado pela imprensa e sem qualquer tentativa de ocultação. O então presidente apresentou críticas ao sistema eleitoral brasileiro, algo que, goste-se ou não, fazia parte do debate político daquele momento.
A reação foi imediata e devastadora. O episódio foi enquadrado como ataque à democracia, virou investigação no TSE e, meses depois, foi usado como um dos principais fundamentos para tornar Bolsonaro inelegível por abuso de poder político. Não houve pacto secreto, não houve benefício financeiro, não houve conspiração escondida. Ainda assim, o caso foi tratado como gravíssimo.
Avançando para 2025 e 2026, o cenário muda radicalmente. Reportagens revelaram que o presidente Lula recebeu, fora da agenda oficial, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no Palácio do Planalto. Vorcaro é hoje investigado por fraudes bilionárias e acabou preso pela Polícia Federal na operação Compliance Zero. Os prejuízos estimados ultrapassam R$ 12 bilhões e atingem, inclusive, fundos de previdência de servidores públicos.
No encontro com Lula estavam presentes nomes centrais do sistema econômico e político: Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda e contratado pelo banco por valores milionários, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o ex-CEO do Master. Mesmo diante das investigações, a reunião ocorreu fora da agenda oficial e sem qualquer transparência.
Paralelamente, vieram à tona relatos ainda mais delicados envolvendo o ministro do STF Alexandre de Moraes. Segundo denúncias, ele teria frequentado a mansão de Vorcaro em Brasília, participado de encontros privados, fumado charutos e consumido vinhos raros justamente no período em que o Banco Master tentava evitar a falência por meio de negociações sensíveis.
A situação se agrava com a revelação de que a esposa de Moraes, Viviane Barci, mantinha um contrato milionário com o Banco Master, informação confirmada após apreensões da Polícia Federal. Moraes negou os encontros, classificando as denúncias como falsas, enquanto o STF falou em “campanha orquestrada”.
É nesse ponto que a disparidade se torna gritante.
Uma reunião pública, transmitida ao vivo, vira crime eleitoral.
Reuniões fora da agenda com banqueiro investigado viram rotina institucional.
Encontros privados entre juiz e investigado rendem apenas notas de repúdio.
A imprensa que dedicou semanas a condenar Bolsonaro agora trata denúncias gravíssimas como assunto lateral. Não há editoriais exigindo explicações, não há pressão por afastamentos, não há debate institucional sério sobre conflito de interesses ou quebra de decoro.
A pergunta é simples e incômoda: por que a régua muda conforme o personagem?
Quando a lei e a moral pública são aplicadas de forma seletiva, o que se corrói não é um grupo político específico, mas a própria ideia de democracia. Se regras valem apenas para alguns, o que está sendo protegido não é o Estado de Direito, mas um projeto de poder.


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