A decisão da China de impor tarifas adicionais de 55% sobre a carne bovina importada acendeu um alerta vermelho no setor pecuário brasileiro. Entidades representativas estimam que a medida pode provocar perdas de até US$ 3 bilhões em receita apenas em 2026, afetando diretamente frigoríficos, produtores rurais e toda a cadeia da carne.
A nova regra, que entra em vigor nesta quinta-feira, 1º de janeiro, estabelece cotas de importação válidas até 2028. Para o Brasil, o limite inicial será de 1,1 milhão de toneladas em 2026, com crescimento de cerca de 2% ao ano nos dois anos seguintes. Qualquer volume exportado acima desse teto será taxado com sobretaxa de 55%, elevando a tarifa total para 67%, o que, na prática, inviabiliza exportações fora da cota.
Segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), o impacto ocorre em um momento especialmente delicado. Em 2025, o Brasil deve encerrar o ano com mais de US$ 18 bilhões em exportações de carne bovina, sendo cerca de 50% destinadas à China. O país asiático responde hoje por 55% das exportações brasileiras de carne in natura, consolidando-se como o principal destino do produto.
Os números reforçam essa dependência. Até novembro de 2024, a receita com exportações para a China somava cerca de US$ 5 bilhões. Em 2025, esse valor saltou para US$ 8 bilhões, um crescimento próximo de 50%, acompanhado de aumento no volume exportado, que passou de 1,2 milhão para 1,5 milhão de toneladas.
Para a Abrafrigo, a medida chinesa pode gerar efeitos em cascata. “É um fator de desestímulo ao investimento do pecuarista, especialmente em um período de transição do ciclo pecuário e redução de oferta”, alerta a entidade. O risco é de retração na produção, impacto sobre preços internos, geração de renda e empregos no campo.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também se manifestaram. Em nota conjunta, afirmaram que a salvaguarda “altera de forma relevante as condições de acesso ao mercado chinês” e obriga o setor a reorganizar fluxos de produção e exportação. As entidades lembram que a cadeia da pecuária bovina sustenta cerca de 7 milhões de empregos diretos e indiretos no Brasil.
Embora cerca de 70% da carne produzida no país seja consumida internamente, os 30% destinados à exportação são fundamentais para o equilíbrio econômico do setor, especialmente em produtos com maior valor agregado, que têm como principal destino o mercado chinês.
Diante do novo cenário, o governo brasileiro afirmou que pretende negociar com Pequim para reduzir os impactos. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, sinalizou a possibilidade de o Brasil absorver cotas não utilizadas por outros países exportadores. “Se algum país não cumprir sua cota, vamos propor a transferência ao Brasil”, disse.
Apesar do discurso oficial de que os impactos seriam “limitados”, o setor produtivo segue cauteloso. Para frigoríficos e pecuaristas, a nova tarifa representa um risco concreto à competitividade brasileira no maior mercado consumidor de carne bovina do mundo.
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