Uma disputa empresarial envolvendo o programa WiFi Livre SP, criado pela Prefeitura de São Paulo para ampliar internet gratuita em regiões vulneráveis, acabou extrapolando contratos, fornecedores e metas de conectividade. O caso agora alcança investigações policiais, disputas milionárias, veículos de imprensa, empresas de telecomunicações e até o financiamento do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nos bastidores, críticos já falam em uma possível mistura entre interesses econômicos, pressão política e disputa narrativa.
Mas afinal, o que está acontecendo?
O programa bilionário de internet gratuita
Em 2024, a Prefeitura de São Paulo lançou um edital para expansão do WiFi Livre SP, programa voltado à instalação de internet gratuita em áreas periféricas e comunidades vulneráveis.
Inicialmente, o projeto previa cerca de 5 mil pontos de conectividade, com orçamento estimado em aproximadamente R$ 108 milhões. Posteriormente, diante de ajustes orçamentários, a meta foi reduzida para 3,2 mil pontos, e o contrato passou para algo em torno de R$ 69 milhões.
O edital acabou vencido pelo Instituto Conhecer Brasil, presidido pela empresária Karina Ferreira da Gama, entidade do terceiro setor que passou a coordenar parte da execução do projeto.
Para operacionalizar tecnicamente a expansão, a ONG terceirizou etapas do serviço para empresas especializadas em infraestrutura de telecomunicações.
O conflito com empresa de telecom
A crise começou quando a ONG passou a acusar a empresa Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda., responsável por parte da infraestrutura técnica, de falhas operacionais e descumprimentos contratuais.
Segundo relatos apresentados à polícia, cerca de 800 links de internet teriam sido interrompidos em regiões vulneráveis.
Além disso, Karina Ferreira da Gama afirmou às autoridades ter sofrido uma suposta tentativa de pressão financeira envolvendo cerca de R$ 2,5 milhões, associada, segundo seu relato, à ameaça de desgaste público e exposição midiática.
As alegações fazem parte de investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo e seguem em apuração.
Onde o Intercept entra nessa história?
O caso ganhou dimensão política quando o site Intercept Brasil publicou reportagens envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia inspirada em Jair Bolsonaro.
Foi então que observadores passaram a apontar uma coincidência que gerou debate nos bastidores.
Um dos jornalistas envolvidos nas reportagens do Intercept é Paulo Motoryn, que possui relação familiar com Mauro Motoryn, executivo do setor de telecomunicações atualmente ligado à Surf Telecom.
A Surf aparece no contexto da disputa porque, segundo reportagens, a empresa integrava anteriormente o ecossistema do programa de conectividade em São Paulo e teria sido impactada pelas mudanças promovidas no edital.
Coincidência ou conflito de interesses?
É justamente aqui que o caso se torna mais sensível.
Críticos passaram a questionar se haveria possível conflito de interesses, sobreposição entre disputas empresariais e cobertura jornalística ou até motivações indiretas relacionadas ao ambiente de concorrência no setor.
Por outro lado, não existe, até o momento, qualquer decisão judicial ou prova oficial que demonstre irregularidade por parte do Intercept Brasil, da Surf Telecom, dos jornalistas citados ou dos demais envolvidos.
Também não há elemento formal que comprove motivação política deliberada ou intenção coordenada contra Jair Bolsonaro ou aliados.
O que existe, neste momento, é uma combinação de:
- disputa empresarial milionária;
- investigações policiais em andamento;
- conexões entre personagens do setor de telecom;
- repercussão política nacional;
- e questionamentos que ainda aguardam esclarecimentos.
A pergunta que ficou no ar
O episódio levanta um debate inevitável:
Uma disputa empresarial pode acabar influenciando narrativas políticas de alcance nacional ou tudo não passa de coincidência entre personagens de um mesmo ecossistema?
Em Brasília e São Paulo, muita gente ainda acredita que essa história está longe do capítulo final.

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